O que aconteceu com Annie? (C.J. Tudor): Como criar personagens falhos

Quando Joe Thorne era adolescente, sua irmã mais nova desapareceu. Vinte e cinco anos depois, um e-mail anônimo o leva mais uma vez ao passado: “Eu sei o que aconteceu com sua irmã. Está acontecendo de novo.”

Atolado em dívidas e bem longe do vilarejo onde cresceu, Joe precisa escapar das pessoas perigosas que estão atrás dele, mas também vê a oportunidade de resolver o que arrasta consigo há mais de duas décadas. Retornar a Arnhill parece a única opção.

Mas voltar também significa abrir velhas feridas e reencontrar pessoas e lugares que ele nunca mais pensou que veria. Afinal, alguns segredos são grandes demais — e Joe não faz ideia de onde está se metendo.

Essa foi a primeira obra que li de C.J. Tudor e confesso que fiquei bem impressionada e satisfeita. Além de construir uma história que te fisga desde as primeiras páginas, ela consegue fazer algo que há algum tempo que eu não me deparava: Durante a narrativa inteira existe um “tema” que vai e volta e de certa forma molda toda a história e decisões das personagens.

Falando em personagens, ela consegue criar personagens falhos, personagens que por serem tão imperfeitos facilmente tornam-se humanos e imediatamente relacionáveis. Em uma narrativa de terror isso é essencial, pois quanto mais você for capaz de crer na humanidade de uma personagem, mais real a ameaça se torna.

Assim como Stephen King (escritor com quem é constantemente comparada), C.J. Tudor consegue escrever crianças e adolescente muito bem, com a diferenças que as personagens femininas da autora acabam tendo uma profundidade maior do que as de King.

Também achei muito interessante o dosagem do terror na obra. Apesar de ser violento, o livro tem poucos, porém eficientes momentos de terror. Eu soltei alguns “misericórdia” durante as cenas mais impactantes, principalmente as que envolvem uma certa boneca (sério gente, não tem nada mais do capiroto do que uma boneca encapetada).

A única coisa que deixou a desejar foi alguns detalhes do final. Além de parecer um pouco apressado, tive a impressão que a autora tentou amarrar algumas pontas que não deveriam ser amarradas, fugindo um pouco do tom da obra (como se tivesse começado Cemitério Maldito e terminado Scooby Doo). Não chega a estragar a experiência, mas causa estranheza, quebrando um pouco a magia tão bem construída até aquele momento.

Para finalizar, eu gostaria de chamar atenção a algo que percebi quando fui procurar sobre C.J. Tudor ao ficar impressionada com o poder de sua escrita. Em diversos lugares (principalmente em artigos em inglês) me deparei com escritores referindo-se a autora da seguinte forma: “Stephen King mulher” (Female Stephen King).

Essa é uma forma extremamente machista de se referenciar a autora, como se sua qualidade sempre estivesse atrelada a um autor masculino superior. Não há problema algum comparar C.J. Tudor a Stephen King, diria até que inevitável devido às semelhanças de tema e narrativa, mas uma coisa é você dizer que ela é “A nova Stephen King” e dizer que ela é a versão feminina do autor, como se essa fosse a característica mais marcante.

Caso você ainda não esteja convencido, tente lembrar a última vez que você viu alguém se referindo a um autor como sendo a versão masculina de uma autora.

Análise Final: Muito Bom!

Avaliação: 4 de 5.

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